"A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.” (Bernardo Soares)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Soneto de bênção


Abençoada a lua, o céu e as estrelas,
E quem os fez também será abençoado;
Abençoada a vargem de onde nascem as belas
Rosas do campo, as quais meu tédio tem regado.

Abençoado o verde desses cursos d’água,
Aonde as lavadeiras cantam de manhã
Canções antigas de volúpia, amor e mágoa,
Tendo a aragem por mãe e a brisa por irmã.

Abençoado o aroma sútil do incenso;
Abençoada a vista esplêndida do vale;
Abençoada a chuva, o orvalho, a tempestade;

Abençoada a voz que o meu amor imenso
Encoraja a cantar, mesmo que inda se cale.
Abençoada a flor de tua castidade.
Perdizes, julho de 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Conversa de pares


Meu Deus, se não tivesses
Ouvido tantas preces
E a todas ignorado,
Eu saberia o quanto
É aconchegante o manto
Que tu me tens negado.

Senhor dos que têm medo,
Qual é o teu segredo,
Qual é tua memória?!
Fizeste-me avesso
À ternura, ao apreço
E à minha própria história...

Abençoados aqueles
De sentimentos reles
Que vivem como gado;
A tua mão os alcança,
E vivem na abastança
Num altar consagrado.

Minha estirpe é mais rara:
Dela homem algum lograra
Encontrar-te, Senhor;
Mesmo assim te buscamos -
No mar, no céu, nos ramos –
Até mesmo no amor...

O seio em que mamei
Era digno de um rei.
Meu leito enternecia...
Na montanha o castelo
Era a imagem do Belo
Esplendor que havia.

Fui crescendo, Meu Pai,
Como o tigre que sai
À procura da presa;
Saciei minha sede
No calor de uma rede
Onde mora a Beleza...

Quanto mais eu crescia
A pretensa harmonia
Que me embalava ao colo,
Foi-se evanescendo
Qual o baque tremendo
De um gigante no solo.

A família dos astros
Apagava-me os rastros
Quando a noite chegava;
Eu subia ao vulcão
E pegava na mão
Um resquício de lava...

O calor era tal
Que o meu corpo mortal
Protestava em escaras;
Aquecido de idéias
(mesmo as outras, tão velhas)
Tinha ânsias avaras.

Não pudera, outrossim,
Compreender o fim
De um dia estar morto.
O defunto que sou
Quer alçar outro vôo,
Quer viver outro aborto...

Senhor dos desgraçados,
Criador dos maus fados,
Meu tirano falaz:
O tempo que me negas
Eu o gasto em refregas
Inimigas da Paz...

Como um mendigo atroz
Eu profiro sem voz
As mais altas blasfêmias;
Libertino das ânsias,
Ainda sinto as fragrâncias,
E o calor de tuas fêmeas.

Semelhante ao teu Filho
(aquele outro andarilho)
Eu padeço sozinho;
Só não tenho uma cruz
Ou uma auréola de luz
Que me acenda o caminho.

Também li o Evangelho –
Mas agora estou velho –
Para mundos melhores;
Conheci que o meu Deus
É o deus dos ateus
E de todas as dores.

Outros deuses também
Me vieram do Além,
Mas estavam doentes;
Tinham perdido a guerra
Exilados na terra
De onde brotam serpentes.

Até mesmo um poeta
Com a fronte insurreta
E as vestes surradas,
Estendeu-me uma taça
Em que a fria desgraça
Explodia em golfadas.

Reneguei a bebida
Como renego a vida
E esse eterno esperar;
Senhor que me consome,
Eu não quero o teu nome.
Quero a vista do mar.

Sou apenas mendigo
À procura do abrigo
Que tu me possas dar;
Já cobraste o aluguel
Do teu servo fiel?
Nada tenho a pagar...

Sou apenas um triste.
Minha tristeza existe
E de mim toma conta;
Jeová dos judeus,
Os meus versos são teus
Como minha é tua afronta...

Perco a respiração
Ao saber que é em vão
Minha prece de louco;
Nem conquanto me tenha
Essa prece roufenha
Que diz nada ou tão pouco.

Só desejo a sorte
De deitar-me com a Morte
E cobri-la de espanto...
Senhor a quem profano:
Sou apenas humano.
Ouve, ouve o meu canto.

Perdizes, julho de 2009

Improviso filial


Irmãos de outras batalhas, aprendemos tanto -
a observar da vida a placidez e o encanto -
quanto a compreender, silenciosamente,
que a escuridão habita em nossa mente;

Mas sabemos também - arautos do futuro -
a respirar na distância oxigênio puro,
como os astros hialinos que moram no espaço,
e sabem o valor da irmandade o laço.
Perdizes, julho de 2009

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Soneto


A vida do Poeta é dura e triste:
Não encontra perfume nem nas flores;
O seu jardim é um jardim de dores
Onde a cor da esperança não existe.

Mas o Poeta, um dia, a caminhar
Pelo jardim onde só há tristeza,
Vislumbrou na distância o belo Altar
Purificado pela Natureza.

Caiu de joelhos. Pôs-se a orar atento.
No fatal estertor do sentimento
Sentiu as lágrimas na fronte enxuta;

Nas lembranças felizes fez-se imerso.
Riscou na terra o derradeiro verso
E seguiu novamente para a luta.
Perdizes, junho de 2009

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Soneto dela

Pele morena, tímido o olhar,
Sorriso meigo, baixa estatura,
Forma divina em humana criatura,
Vinda do céu para na terra amar.

Estrela incandescente que no mar
Caiu para tomar outra figura;
Ao firmamento um dia irás voltar,
Quando o Amor te conceber mais pura.

É impossível, eu sei, tomar-te conta,
Ao Criador pareceria afronta -
E eu não mereço Dele tal presente;

Mas, ah! Serei perdoado - e se o não for –
Terei a redenção do teu amor...
Enfim liberto num desejo ardente.

Perdizes, junho de 2009

Certeza simples

O rio segue tranqüilo
E deságua noutro rio
Que deságua num maior.

O sentimento se espalha
E se torna desvario
Quando misturado à dor...

A prece do penitente
É a medida do quanto
Se acredita apetecer.

A vida tece a armadilha
Como tecedeira o manto
Inefável do prazer...

O mar precisa do barco
Para em cores se espraiar
Na vastidão da baía.

Eu só preciso de ti.
Não sou rio nem sou mar:
Sou a prece que te guia.

Perdizes, junho de 2009

Soneto de ventura

Visita a minha campa quando eu for
Buscar num outro mundo a paz eterna;
E se lembrares que eu to tinha amor,
Entra comigo na fria caverna.

Sem mim foste infeliz – agora vais
Tão fatigada... como eu sempre estive.
O teu repouso não virá jamais,
E tu serás fantasma que ainda vive...

Mas por estes caminhos, de mãos dadas,
Como duas crianças devotadas
A um brinquedo alegre que faz bem,

Busquemos juntos da montanha o cume,
E Deus nos possa aspergir perfume
Na inumana expedição do Além.
Perdizes, junho de 2009

sexta-feira, 13 de março de 2009

Abrigo

Flores sem hastes
No céu imenso
Dão-lhe contrastes
E movimento.

Feridas secas
Querem sangrar,
Cobrir com sangue
A terra e o mar.

Os teus desejos -
Senhores ávidos –
São todos ácidos
Essência cáusticos.

A lua agora
Do céu descer
Deseja muito
Acontecer.

Não lhe pediram:
A colocaram
À revelia
Na noite de astros.

O sol é escravo.
Também quisera
Sair do fulcro
Em noite eterna.

Não tens beleza,
Donzela inútil,
Nem interessa
Teu róseo sulco.

Do verme, sim,
Serás repasto.
Nunca se escapa
Desse carrasco.

Quando te fores
Verás o quanto
A natureza
Ignora o pranto.

Então não chores
Dentro da terra.
Tudo que morre
Também desperta.

O despertar
Num outro lado
É como dádiva
A outro carrasco.

Aqui não podes
Seguir teu trilho,
Não há quem roube
A um andarilho

Que nada tem
Mas pensa tê-lo
Anéis hialinos
Entre os cabelos.

Teu ser comigo
Será eterno.
Aqui o abrigo,
Aqui o Inferno.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Retrato de Jey Low

Divinamente bela, e sem o ser:
Não a beleza estática das flores
Que num painel orgânico e sem cores
Renascem velhas para o amanhecer.

Encantadora, mesmo sem querer
Que todos busquem em seu leito ardores.
Cruel, porém, por não poder dizer
Que um anjo vela por seus dissabores.

Fecha os olhos e quer se libertar
E correr e correr e imaginar
Um hospital onde não haja doentes;

Mas ah! Seus olhos já estão se abrindo
Para o dia de agora, um dia lindo
De onde nasce a mais pura das nascentes.

A variação de seus passos de dança (À Jey Low)

Se nós pudéssemos saber o quanto
Perdemos tempo a esperar somente
Que o riso venha e que não venha o pranto
E a rosa cresça sob um sol ardente

Não estaríamos vivendo tanto
A acreditar que a vida, simplesmente,
A nós possa trazer o acalanto
E eternizar o que nossa alma sente;

Se nós pudéssemos do amor medir
O muito pertencido a outrem amar,
As respostas viriam sem perguntas;

Pois nos olhos nos brota a cor do mar
E os lábios se acendem a sorrir
A imensidão de duas almas juntas.

Araxá, 20/01/09, às 23:38

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Cotidiano da noite

O paletó descansa amarrotado
E ao seu lado descansa meu chapéu.
Só a minha tristeza não descansa.

Estou faminto mesmo na abastança.

Na rua, um transeunte me interpela
E me pede cigarros e o isqueiro.
A madrugada fecha os bares cedo.

Meu coração é como uma capela.

Chego em casa e não sei por que aqui vim.
Os meus móveis são novos e eu sou velho.
Na geladeira, a carne já esquecida.

A Morte traz a ilusão do fim.

Espero o dia. A volta da alvorada
Traz a certeza das conquistas fúteis.
Vejo a noite expirar em tons dourados.

Meus sonhos todos são desesperados.

O pássaro está morto na gaiola.
Suas asas muito abertas já não podem
Sobrevoar o espaço da prisão.

A vida escorre, e esse escorrer é vão.

Faço as malas.O sol está chegando.
Morreram as sombras no teatro azul.
Espero a hora certa da viagem.

O meu destino é como um quadro nu.

Araxá, em 2009.

A um poeta morto

Vejo sinais de pranto nas estátuas...

O Escolhido

Se acaso estes versos desiguais
Se perdem na inconstância da razão,
É que os escreve a força da emoção
E os acentua em sangue - nada mais.

Guerra é preciso para que haja paz,
Amor potente, para a ilusão;
Para existir, saber que tudo é vão.
Para escrever é necessário mais.

Talvez, leitor, o brilho dessa verve
Pareça extasiar-te como o vinho
Guardado há muito tempo extasia.

Mas saiba que ao poeta que aqui serve
Só é preciso a dor de estar sozinho
Para que a lira mostre a melodia.

Araxá, em 2009.
Estou cansado, é verdade...
Quero ter sono e dormir
Para poder prosseguir
E nunca sentir saudade

Do sono brando que não tive
Quando podia descansar.
A vida é o drástico declive
Do Sonho arremessado no ar.

Tenho fé no que transcende
A minha Alma decepada.
Existi como um duende
À procura de uma fada.

Perdi o bilhete de passagem
Que possuía para a vida...
Não desisti, porém, da viagem:
Só me cansei desta guarida.

Existir é esperar a morte certa.
O homem que a espera enfim desperta
E vê que não viveu, pois esperava...

De tudo que fiz na vida
Dispendi muito trabalho.
Levei tudo de vencida
E esta batalha aguerrida
Tornou-me um homem falho.

As luzes que se apagam
Não mais se acenderão.
Vagam com elas despojos
Filhos da Escuridão.

Basta amar quem nos ama?
Não há amor entre feras.
O Amor sempre reclama
Duas mil primaveras.

Estou cansado, é verdade...
Quero ter sono e dormir
no alvo seio do devir.

O Futuro é a minha Divindade.

Araxá, em 2009.

O repouso da Alma

Quando o Outono anuncia a sua chegada
E a natureza pálida esmorece
E chora a última folha desfolhada
E o vento frio espalha a fria prece

A Vida tece a teia e a teia tece
Mais uma vítima a ser devorada,
E que apesar de insciente não padece
A sina de viver abandonada.

Nas torres das igrejas as corujas
Se escondem dessas alvoradas sujas
E o sino dobra aos mortos que estão bem;

Vejo-me preso numa teia enorme.
Enquanto o Outono chega, a Alma dorme
Embalada no seio do Além.

Araxá, em 2009.