"A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.” (Bernardo Soares)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Soneto de ventura

Visita a minha campa quando eu for
Buscar num outro mundo a paz eterna;
E se lembrares que eu to tinha amor,
Entra comigo na fria caverna.

Sem mim foste infeliz – agora vais
Tão fatigada... como eu sempre estive.
O teu repouso não virá jamais,
E tu serás fantasma que ainda vive...

Mas por estes caminhos, de mãos dadas,
Como duas crianças devotadas
A um brinquedo alegre que faz bem,

Busquemos juntos da montanha o cume,
E Deus nos possa aspergir perfume
Na inumana expedição do Além.
Perdizes, junho de 2009

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