"A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.” (Bernardo Soares)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Cultua o idioma, não o temas.
Ele é o murmúrio com que enfloras
teu discurso de amor, que em certas horas
se podem transformar em belos poemas.
A escrita com arte é um ofício
difícil, ríspido, ingrato.
É como caminhar no asfalto quente
calçado confortavelmente
com uma pedra no sapato.

domingo, 30 de outubro de 2011

Ver todo um Mundo num grão
E um Céu em ramo que enflora
É ter o Infinito na palma da mão
E a Eternidade numa hora.
(W. Blake)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Metamorfose Ambulante

A katlin Alves


Não prefiro ser nem o que sou
Nem Metamorfose.
Tu também,
Se fome tiveres de Além,
Alçarás vôo.
Enquanto que eu
Como um homem que nunca bebeu
Estou.
E já que sou
Meu próprio pai, quem sabe avô
Partilharei contigo
Em gesto sóbrio de amigo
Metamorfo, metonímio,
Minha primeira dose.
Talvez a lenda
Da lagarta tornando borboleta
Ou vice-versa
Seja verdade.
Se somos hoje, ontem fomos.
Mas não propomos ser quem somos.
Daí a fatalidade
Da Metamorfose nunca vir a tornar-se
Realidade.


Araxá, junho de 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

EU

O amor já não canto em costura de versos.
Agora me arremesso
Ao revés dos que buscam ser felizes.
Cortei minhas raízes
E delas fiz asas maiores que o céu.

Tenho muito, e o que tenho sou eu
Batendo com as mãos nuas na rocha inculta.
Não te aconselho
Se a meio
Vieres participar dessa luta.

O sono fez-me par de teu silêncio.
As janelas fechadas traduzem meu quarto:
Nada mais sou que um abstêmio
A quem tomaram o último trago.

Se me condenso a chuva tarda.
Restam alguns respingos, mas amarga
A brisa cresce do que fora água.

Mas não repara:
As almas delirantes repousam
E depois do descanso ainda ousam.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

TOM PESSOAL

Não escrevo o que sinto:
Escrevo labirinto
De onde sei a saída.

Nestas salas de vidro
Eu paro, eu olho, eu sinto
O que foi minha vida.

São paisagens-memória
Mortas, rememoradas
Qual nos livros de história

As mentiras contadas
São irmãs do real.

O papel me confessa:
Dele a letra impressa
É meu tom pessoal.

terça-feira, 1 de março de 2011

O amor é um comércio, é um negócio:
Trocam-se beijos por moedas de ouro,
Como se o amante fosse um mero sócio
De quem aos poucos se rouba o tesouro.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Aquela que virá

Espera por aquela que lhe ofertará um beijo
Mas não a espere com tanto desejo.
Ela virá no tempo certo. Se a encontrar desperto
Fecha seus olhos para o sonho, para a vida
Que em fogo feneceu já consumida,
Mas como toda chama segue o vento,
Espere-a renascer, sem ódio ou ressentimento.
Então ela virá, a sussurrar delícias,
Coberta por um manto branco de carícias.
Beije-a e siga, ó viajante sem destino,
Tornado pelo amor mais uma vez menino.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Prólogo do livro "O Ensaio Falhado", de João Paulo Ribeiro

Este livro se chama O Ensaio Falhado.
Outro nome talvez lhe roubasse a essência.
O autor decidiu-se, por fim, publicá-lo.
Se ele lhe provocar algum tipo de abalo
É que ambos partilham da mesma demência.

Epílogo do livro "O Ensaio Falhado", de João Paulo Ribeiro

Co’ algum sacrifício a obra foi feita.
Busquei-a no fundo de meu fingimento.
Se tive o aval dos teus olhos alheios
Também foste presa dos mesmos anseios
Com que alimento minha alma imperfeita.

A última estrofe produzo-a agora:
O dia renasce no berço da aurora,
É tempo de luz quando a noite perece;
Ó Musa incorpórea, perdoa o poeta!
Quem sempre viveu com caprichos de asceta
Merece o estertor de uma última prece!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Impressões do mar


Eu nunca vi o mar. Meus olhos apenas o imaginam muito grande, imenso até. O mar escravo do horizonte! Ver-se sempre entre a linha que divide o sol e a água. Ser espelho da luz! Eu imagino o mar com suas ondas fortes, rebentando nos rochedos. Na calmaria o mar repousa barcos em velas. Haverá realmente o mar como eu o imagino? Acho que se um dia eu o encontrar, ficarei triste. Não pela imensidão de ser mar: talvez por me sentir pequeno diante. Eu que me acho tão grande, tão senhor de minhas insignificâncias... quando me souber mar (estando em sua frente), nada haverá em mim senão o sol se refletindo, alto e simples. Ao longe, um barco, um barco apenas, com a vela rasgada pelo ar. Assim será, quando eu tornar-me em mar.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Aviso

Todos os poemas postados neste sítio estão registrados em nome do autor, na Fundação Biblioteca Nacional, sob o número do ISBN (International Standard Book Number). É proibida a reprodução ou cópia dos mesmos. O plágio ou a apropriação de obra literária é crime previsto na Lei de Direitos Autorais n. º 9.609/98 e está sujeito aos trâmites legais, com pena prevista e multa.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Pontes e sonhos

Mais um dia de mesmice e tédio,
Febre do futuro incerto.
Movo-me como um réptil,
Frio, alheio e inédito.

Farsa atual do passado morno,
As olheiras novas olham em torno.
Tudo é vasto, desde que de olhos fechados.
O almoço me espera, mas da cama
Minha preguiça reclama
Os sonhos já sonhados.

Entanto é preciso ensinar na escola
A linguagem imprecisa da memória.
Eu não tenho saber além das pontes...
Quero apenas esquecer que sou
Muito pesado para alçar tal vôo.
Mas possuo a estatura dos meus horizontes.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O mundo ideal

Campos de flores, lírios.
Poças de sangue, espelhos.
Manicômios.

Pássaros e penas.
Gritos e tortura.
Cemitérios.

Um cão de orelhas cortadas.
Lâmpadas em tom vermelho.
Catedrais.

Homens em formigueiros.
Vasos cheios de poeira.
Nada mais.
A solidão escolheu-me para amante: encontrei-a num dia chuvoso, quando as nuvens se mostram pesadas. Recolhera-me mais cedo, acompanhado pelo sol. No prazo mínimo de uma reflexão, aceitei-a e dormimos juntos. Seu corpo incorpóreo se ria – havia encontrado o par perfeito. Desde então vivemos juntos, a solidão e eu.