"A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.” (Bernardo Soares)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Realização pessoal

Sou como os outros mas não sou ninguém.
Minha alma é tresloucada e nada tem.
De resto luto contra os pesadelos
E a vontade de não deixar de tê-los.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Momento de nirvana

"_ Bem vinda à minha casa. - eu te agradeço
pela boa intenção com que vieste.
Descalce as botas. Tens o meu apreço.
É-me agradável este teu ar celeste."

Saudei-te assim, e, dessa forma, entraste
Na alcova deste que da vida é farto.
Eras tão bela que um fatal contraste
fez-se presente entre a tua luz e o quarto.

Amamo-nos. Teu corpo era a seara
onde meu corpo nunca descansara.
O sol chegou com lances de ouro puro.

Ah! Naquele momento de nirvana
tu me fizeste amar a forma humana
do teu corpo entalhado com apuro...

Araxá, em 2008

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terça-feira, 28 de outubro de 2008

A exatidão do mundo antigo

Cada vez que me observo interiormente
através dos espelhos da retina,
sinto-me como um ser que já não sente,
e por pouco sentir, só se imagina.

Toda estrela tem brilho diferente,
toda mentira ainda é cristalina.
Lembro-me de quem fui, e, vagamente,
sei que minha alma é uma hórrida assassina.

Já fui, por certo, o sonho de meu pai -
equlibrista sóbrio que não cai -
e minha mãe me aconchegou no inverno;

Mas a vida traiu-me, silenciosa,
e um silêncio vil de qualquer coisa
me fez calar neste silêncio eterno.

Araxá, em 2008.

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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Soneto improvisado em um guardanapo escuro

Nesta semana em que ninguém trabalha
(pelo menos aqueles que conheço)
cortarei o meu corpo com a navalha
pr'a ver se dessa forma eu desfaleço.

Busquei o teu carinho, o teu apreço,
e tu me deste o pano da mortalha
com que me visto agora, e reconheço
minha existência totalmente falha.

Já podem preparar a campa escura!...
Nada desejo além da sepultura,
nada observo senão um sumidouro;

E quando eu estiver com os braços frios
talvez os meus ignóbeis desvarios
possam tornar-se os meus castelos de ouro!

Araxá, em 2008.

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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Pela surpresa que me fizeste

Agora que possuo o teu segredo -
Esse brilho no olhar que te estertora -
poderei me livrar deste degredo
que outro amor me condenara outrora.

O teu segredo eu o possuo agora -
esse lábio que a mim se abriu a medo -
como um lírio do campo que bem cedo
se encontra aberto pela luz da aurora...

Venhas! Meus lábios querem o teu beijo
e o meu desejo busca o teu desejo...
Não há virtude se não houver pecado...

Agora sei que a Sorte por mim vela
e atende por um nome: Graziela...
Um anjo que merece ser amado.

Araxá, em 2008.

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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A uns olhos negros

Meus sonhos são estátuas deformadas,
criações imperfeitas de um artesão
que tem por ferramenta duas espadas:
uma em sua palma, outra no coração.

Das estátuas se ignora a imperfeição,
pois com vestes celestes adornadas
possuem o encanto estático das fadas
dormindo sob a auréola da Ilusão.

Um dia elas serão por mim despidas,
e o álacre das chagas, das feridas,
mudar-lhes-á o aspecto embevecido;

Mas a ternura dos teus negros olhos
esconderá os pútridos escolhos
que a outros olhos têm sobrevivido.

Araxá, em 2008.

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sábado, 20 de setembro de 2008

Mártir dos escombros

A todo homem que sofre agora canto
pois tenho em mim a Humanidade inteira,
e quando um sofre, também sofro, enquanto
a mim não chega a hora derradeira.

Filhos legítimos do desencanto,
sou o afago-reflexo em vossas vistas,
clarão da Idéia, insensatez do pranto,
reflexos de diamantes e ametistas.

Se brilha o Sol e a luz da Lua brilha
minha alma é uma mendiga, é uma andarilha,
que procura esmolar luzes mais fortes.

Carrego em mim, ah!, mártir dos escombros,
a Tristeza do mundo sobre os ombros
e um cemitério com um milhão de mortes!
Araxá, em 2008.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O barco e seu destino

O barco desconhece o seu destino
mas o cumpre no mar.
Meu destino o cumpri desde menino
e o não pude mudar.

Como quem se distrai e não enxerga bem
a chegada das trevas,
não me pude encontrar nos suspiros do Além
de outras Eras primevas.

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Suicida-embrião

O suicida-embrião
estuda, lentamente, e premedita
como ausentar-se deste mundo vão
e anestesiar a consciência aflita.

Melhor morrer com honra
do que viver sem ela.

Indagação aos Militares Fúnebres

Qual será a punição para o soldado
que desiste da guerra?

O espantalho

Minhas ânsias, minhas febres,
minhas esperanças breves,
dêem-me a força redentora.

Sou um espantalho triste
que paralisado assiste
ao assalto na lavoura...

O imbecil

Onde os santos protetores?!...
Neste festival de horrores
tudo acaba, nada dura.
O Sonho nasce e perece
como em seu âmago houvesse
patologias sem cura!

Loucura precoce

Acreditar em deuses?
Cada homem possui um deus dentro do peito.
Alguns trazem reveses,
outros cobrem de glórias o guerreiro eleito.

Meu sangue gela quando estou sozinho
pronto para morrer.
Arrastei-me, aos farrapos, no caminho,
e o que fui não há-de ser.

A carne é fraca e o espírito perece
aprisionado e inculto,
e quando a carne enfim desaparece
da Sombra nasce o Vulto.

Errei por muito tempo, relembrando,
uma paixão doentia.
Vivi como um cadáver miserando
na Terra da Agonia.

Das batalhas vencidas nesta guerra
aprendi a ser forte.
Como o coveiro que ao defunto enterra
enterrei minha sorte.

Sou um carteiro extravagante
que lê as cartas de outrem
para levar a vida adiante -
a dos outros, que a dele ele não tem.

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A função réproba do filho sem pai

Como alguém que fome sente
e caminha descontente
sem poder alimentar-se,
na poesia procuro
acender meu ser escuro
com uma vela de catarse.

Oração da auto-penitência

Eu sou a criatura estranha e louca
de passo tímido e existência pouca,
monstro de escuridão e de torpor.
Sou o carrasco dessa nova estética,
mártir tristonho da conduta ascética -
Olhai por mim, olhai por mim, Senhor.

Olhai pelos meus sonhos tão sombrios
que não verão a luz do manto azul;
olhai pelos meus áureos desvarios
e deixai-me sereno e pleno e nu;

Olhai por minhas asas sequiosas
destas imensidades arredias;
Vigiai meu coração - manto de rosas -
de onde brotam celestes harmonias...

Não me disseram, ó Pai dos penitentes,
que as almas superiores são malditas
por viverem pior que os indigentes
nesta terra de dores infinitas;

Só me basta saber que não me findo
como findam as luzes das estrelas
quando o nascente a imensidade vem medindo
numa ânsia de excitar no mar procelas...

Olhai por mim, em tudo e a toda hora,
desde a minha saída até a chegada,
pois minha alma estremece e treme e chora
qual uma criança numa casa abandonada.

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